
A IA vai baratear a conta do consumidor e fortalecer as marcas próprias?

A inteligência artificial está deixando de ser uma promessa futurista para se tornar uma engrenagem central na formação de preços, no desenvolvimento de marcas próprias e na tomada de decisão do varejo supermercadista. Mais do que automatizar processos, a IA amplia a capacidade dos varejistas de entender comportamentos, antecipar demandas e reduzir riscos em um ambiente de margens cada vez mais pressionadas.
Segundo Wesley Bean, diretor de operações da Engage3, a grande virada está na profundidade da leitura dos dados de consumo. “Durante anos, a gente só passava o cartão fidelidade para ganhar um dólar de desconto naquela lata de milho. Hoje, quando analisamos esses dados de forma mais profunda, percebemos que não se trata apenas de uma lata de milho, mas de uma combinação de atributos nutricionais que ajudam a contextualizar o estilo de vida do cliente”, afirma. Para ele, esse nível de análise permite inferir hábitos como prática de atividades físicas, tipos de dieta e até potenciais riscos de saúde — informações valiosas para decisões de sortimento, precificação e personalização de ofertas.
Precificação mais inteligente e menos reativa
Com modelos preditivos mais sofisticados, a IA passa a apoiar estratégias de preço que vão além da simples reação ao concorrente. Ao cruzar dados de comportamento, elasticidade, histórico de compra e contexto de consumo, os supermercados conseguem ajustar preços com mais precisão, protegendo margem sem perder competitividade. “Do ponto de vista da ciência da decisão, essa integração e a precisão das análises preditivas só tendem a aumentar”, destaca Bean.
Esse avanço também impacta diretamente a dinâmica promocional. Em vez de descontos genéricos, a tecnologia permite ofertas mais direcionadas, relevantes e sustentáveis financeiramente, reduzindo desperdícios e melhorando o retorno sobre investimento promocional.
IA como motor das marcas próprias
No desenvolvimento de marcas próprias, o impacto é ainda mais estratégico. Bean explica que a análise preditiva já permite simular o potencial de sucesso de um produto antes mesmo de ele chegar às gôndolas. “Conseguimos construir o perfil de um produto e inferir seu desempenho considerando atributos como qualidade, rotulagem e design da embalagem. Isso é fundamental, porque lançar um produto é caro, especialmente se ele não performar bem nos primeiros 90 a 120 dias”, afirma.
Com esse apoio, o varejo supermercadista reduz riscos, acelera o time-to-market e aumenta as chances de sucesso das linhas próprias, que seguem ganhando relevância como instrumento de diferenciação, fidelização e melhoria de margem.
Tecnologia, pessoas e nova liderança de loja
Para Wesley Bean, o avanço da IA também redefine o papel da liderança nas lojas. A tecnologia passa a liberar tempo operacional e oferece uma leitura mais clara do que acontece no ponto de venda. “Ela ajuda a entender melhor o que está acontecendo financeiramente dentro da loja, como orientar funcionários no momento certo e, principalmente, devolver ao gerente de loja a possibilidade de estar mais presente no chão de loja, como antigamente”, observa.
Esse movimento, segundo ele, exige novas competências e uma revisão das práticas de gestão de pessoas. “Você precisará de uma estrutura organizacional muito diferente no futuro. Assim como a tecnologia precisa inovar, o RH também precisa ser disruptivo para extrair valor real dessas ferramentas analíticas avançadas”, completa.
O cliente continua sendo a variável central
Com passagem pelo Walmart, Bean reforça que o varejo sempre foi, na essência, um negócio orientado por tecnologia, ainda que isso nem sempre seja visível para o consumidor. “O Walmart é uma das empresas de TI mais sofisticadas do planeta. Existe um ciclo virtuoso de investimento tecnológico que continua gerando dividendos”, afirma.
Mesmo com todo o avanço da IA, ele lembra que o cliente segue sendo a variável mais difícil de controlar e a mais importante. “O cliente vai te dizer se você acertou ou errou, porque ele vota com a carteira.” É justamente nesse ponto que a inteligência artificial se consolida como aliada estratégica: não para substituir decisões humanas, mas para torná-las mais rápidas, informadas e conectadas à realidade do consumo.

