
NRF: dia 1 aponta maturidade do varejo global e cobra resultados reais da tecnologia

O primeiro dia da NRF 2026 marcou uma virada clara no discurso do varejo global. Longe da euforia tecnológica que dominou edições anteriores, o maior evento mundial do setor começou com uma mensagem direta: a tecnologia deixou de ser promessa e passou a ser obrigação operacional. Juarez Leão, CEO do Leão Group, avalia que o tom do evento foi de ajuste fino, maturidade e cobrança.
“Foi um dia com menos brilho e mais responsabilidade. Não vimos anúncios mirabolantes ou apostas futuristas. O que apareceu foi um varejo mais consciente, que entende que tecnologia sozinha não resolve nada”, afirmou.
Um dos pontos mais recorrentes nas discussões do primeiro dia foi a consolidação da inteligência artificial como parte da infraestrutura básica dos negócios. Para Juarez Leão, ficou evidente que a pergunta já não é mais se as empresas usam IA, mas como ela está sendo aplicada. “A inteligência artificial deixou de ser vantagem competitiva. Ela virou o novo básico bem-feito. A cobrança agora é sobre impacto mensurável, escala e adoção interna por quem realmente decide”, disse o executivo.
Cases apresentados por gigantes como Walmart, LVMH, Home Depot e grandes plataformas de pagamento e dados reforçaram essa leitura. A lógica comum foi clara: menos projetos-piloto dispersos, mais casos de uso bem definidos; menos discurso tecnológico, mais impacto direto na operação. “O foco migrou da inovação como vitrine para a inovação como sistema nervoso do negócio”, resumiu Juarez.
O humano como novo luxo
Se a tecnologia amadureceu, o elemento humano ganhou ainda mais protagonismo. O conceito de human premium atravessou diferentes painéis e setores, do varejo físico ao luxo. “Em um mundo saturado de automação, o que diferencia as marcas não é o quanto elas automatizam, mas o quanto conseguem preservar e potencializar o humano”, destacou Juarez Leão.
Segundo ele, isso se manifesta em lojas físicas com experiências mais sensoriais e menos apressadas, em jornadas digitais mais contextuais e silenciosas, e no luxo, onde a tecnologia existe, mas não se impõe.
Uma das frases mais emblemáticas do dia, dita por um executivo da LVMH, sintetizou essa visão: “A tecnologia precisa estar em todo lugar, mas visível em lugar nenhum.” Para Juarez, “IA boa é aquela que desaparece para o cliente, enquanto fortalece o vendedor, o criativo e o decisor”.
Agentic Commerce: da transação à relação
Outro tema que apareceu com mais maturidade foi o Agentic Commerce. Diferente de anos anteriores, o conceito foi tratado sem exageros ou promessas irreais. “Não se trata de criar robôs que compram por nós. Trata-se de construir camadas inteligentes que compreendam intenção, contexto e momento”, explicou Juarez Leão.
Quando bem aplicado, segundo ele, o agente orienta o consumidor, reduz ruído, elimina decisões irrelevantes e cria continuidade na relação. “Quando mal aplicado, vira fricção tecnológica. Quando bem feito, vira confiança”, afirmou.
Dados sem governança passam a ser risco
A confiança também ocupou espaço central nas discussões do primeiro dia. Com a IA participando cada vez mais das decisões estratégicas, dados sem governança deixaram de ser um ativo e passaram a representar risco.
“Transparência, explicabilidade, segurança e responsabilidade deixaram de ser apenas pauta de compliance. Viraram critérios reais de escolha para consumidores e investidores”, avaliou Juarez. Segundo ele, a lógica do mercado mudou: “A era do ‘confia em mim’ acabou. Agora é ‘me prova’”.
Consumo pressionado exige precisão
O cenário econômico analisado durante o evento trouxe alertas importantes. Embora o consumo nos Estados Unidos siga forte, ele está concentrado em uma parcela menor da população, fortemente alavancada por ativos financeiros. Ao mesmo tempo, a base do consumo convive com pressão de custos, endividamento e incertezas.
“Tarifas, imigração, energia e IA formam um ambiente volátil que impacta diretamente preço, margem e planejamento”, disse Juarez Leão. “Nesse contexto, crescer sem precisão é um risco. O varejo vai precisar ser mais cirúrgico: menos volume cego e mais rentabilidade consciente.”
O que se consolida e o que perde força
Após um dia intenso de conteúdo, algumas tendências ficaram claras, segundo o CEO do Leão Group.
Ganham força:
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IA como infraestrutura operacional
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Experiência humana como diferencial competitivo
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Agentic Commerce orientado por contexto
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Governança de dados como pilar estratégico
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Tecnologia aplicada à decisão, não ao espetáculo
Começam a perder espaço:
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Projetos piloto infinitos sem escala
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“IA para tudo” sem retorno claro
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Automação que afasta o cliente
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Tecnologia apresentada sem impacto mensurável
Uma NRF menos brilhante e mais relevante
Para Juarez Leão, o primeiro dia da NRF 2026 não empolga pelo brilho, mas pela maturidade. “O varejo global parece ter entendido que tecnologia não salva estratégia mal pensada. Ela apenas amplifica o que já existe, para o bem ou para o mal”, concluiu.
Segundo ele, o verdadeiro Next Now não está no próximo software. “Está em decidir melhor, executar melhor e respeitar mais o cliente. E isso, definitivamente, não é hype.”

