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Consumo de doce no Brasil: como se adaptar às mudanças no comportamento

Com aumento da busca por saudabilidade, estratégias se tornam essenciais para o setor supermercadista

29/10/2026

Mercado e tendências
Categoria de doces passa por mudanças nos últimos anos em meio ao aumento na busca por saudabilidade

Categoria de doces passa por mudanças nos últimos anos em meio ao aumento na busca por saudabilidade

Do brigadeiro ao doce de leite, o brasileiro adora um doce! Porém, as novas tendências no comportamento de consumo têm impactado até mesmo essa paixão nacional pelo açúcar. Um levantamento da Worldpanel by Numerator apontou que, no primeiro trimestre de 2025, o consumo domiciliar de chocolate caiu 19% em volume.

Na mesma linha, dados da Scanntech Brasil registraram que o volume de vendas de açúcar recuou 21,2% ao comparar o primeiro trimestre de 2022 com o mesmo período de 2026, acompanhado por retrações expressivas nas categorias de biscoitos (19,3%) e chocolates (15,7%). Um dos fatores centrais que explicam esse movimento é a busca crescente por saudabilidade e bem-estar na alimentação cotidiana.

Cada vez mais atentos ao rótulo, os consumidores estão reavaliando ingredientes e reduzindo o consumo de determinados componentes - sendo o açúcar um dos principais focos. Diante desse cenário, a categoria de doces no Brasil passa por transformações, exigindo que o supermercadista e a indústria realinhem suas estratégias para atender a essa nova realidade.

Como o comportamento do consumidor tem mudado?

A busca por uma vida mais saudável deixou de ser um nicho para se tornar uma prioridade em massa. Esse movimento transforma diretamente a dinâmica das prateleiras e altera o critério de escolha no momento da compra.

"Existe uma tendência cada vez maior de busca por produtos saudáveis, e o varejo precisa estar atento a esse movimento. Os consumidores estão mais interessados em conhecer novas opções e observar características dos produtos que se alinhem às suas preferências e ao seu estilo de vida", afirma Caroline Barros, head de marketing do Supermercados Unidos PQA.

Essa percepção também tem direcionado os investimentos da indústria. Rosi Barbosa, sócia-fundadora da marca mineira de doce de leite Rocca, avalia que o público não está, necessariamente, cortando os doces da rotina, mas sim refinando suas escolhas. "Existe uma busca crescente por equilíbrio, mas isso não significa abrir mão do prazer de comer algo gostoso. Significa valorizar mais a qualidade, a procedência e a composição dos alimentos", afirmou.

Segundo Rosi, existe uma tendência de valorização de itens com listas de ingredientes mais simples e transparentes. "O consumidor quer entender o que está levando para casa. Na Rocca, sempre acreditamos nisso. Nosso doce de leite nasceu com uma proposta muito clara: leite, açúcar, amor e só. Sem conservantes ou espessantes", comenta a sócia fundadora da marca.

Esse comportamento evidencia que o brasileiro passou a enxergar o doce como um item que precisa ter seu custo justificado, abrindo espaço para marcas de maior valor agregado. "Acreditamos que a indulgência continuará fazendo parte da vida das pessoas, mas cada vez mais acompanhada de escolhas conscientes e de produtos que entreguem qualidade, sabor e uma história verdadeira. O consumidor não quer necessariamente abrir mão do doce. Ele quer sentir que vale a pena consumi-lo", reforça a empresária.

Estratégias e oportunidades no mercado

Categoria de doces está passando por mudanças em meio ao aumento da busca por saudabilidade 
Ao analisar essas transformações, fica claro que a categoria de doces não está encolhendo, mas se transformando. Para acompanhar o ritmo do mercado, indústria e varejo precisam atuar em conjunto na criação de novas ocasiões de consumo.

No caso dos fabricantes, diversificar os momentos de uso do produto é uma das abordagens mais eficientes. O doce de leite, por exemplo, vai além da sobremesa tradicional: combina com o café da manhã, frutas, queijos, pães ou até para o consumo puro de colher. Ampliar essas possibilidades atrai diferentes públicos e posiciona o item como um investimento versátil na cesta de compras.

"Acredito muito no poder de criar ocasiões de consumo. Quando mostramos novas possibilidades de utilização de um produto, ampliamos naturalmente sua presença na vida das pessoas", afirma Rosi Barbosa. A executiva destaca ainda o apelo da experiência do consumidor.

"Ele não compra apenas um doce. Muitas vezes, compra uma lembrança, um momento de prazer ou uma experiência que deseja compartilhar. Na Rocca, buscamos justamente essa conexão entre sabor, memória afetiva e versatilidade. Mais do que vender um produto, precisamos mostrar ao consumidor quantos momentos especiais ele pode proporcionar", reforça Barbosa.

Para sustentar essa proposta, a diversificação do mix torna-se indispensável. Hoje, o portfólio da Rocca inclui versões como tradicional, café, coco, avelã, pistache e cacau. "Essa diversidade amplia as possibilidades de consumo e nos permite atender diferentes preferências e ocasiões", destaca a sócia fundadora da marca.

Porém, se adaptar não exige descaracterizar a essência da marca. A sócia-fundadora ressalta que a principal aposta da Rocca continua sendo justamente a simplicidade: "Acreditamos que inovar não significa necessariamente adicionar mais ingredientes ou tornar um produto mais complexo. Às vezes, é justamente fazer o simples de uma maneira extraordinária. O consumidor pode até mudar a maneira de consumir, mas o desejo por experiências verdadeiras, sabores marcantes e boas histórias permanece", destaca.

Como adaptar o supermercado ao novo consumidor

No ponto de venda, essas diretrizes ganham força prática. O movimento de saudabilidade oferece ao varejista uma oportunidade especial para explorar o cross-merchandising.

"O doce de leite pode estar na seção de doces, mas também pode ser apresentado próximo aos queijos, aos cafés, aos pães e aos ingredientes de confeitaria. Essa exposição cruzada ajuda o consumidor a visualizar novas possibilidades e pode estimular compras que não estavam inicialmente planejadas", destaca Rosi Barbosa.

Conectar a jornada visual do cliente às suas necessidades do dia a dia é fundamental para rentabilizar a categoria. Caroline Barros complementa o papel do visual merchandising: "A exposição no ponto de venda é fundamental para facilitar a escolha do consumidor, despertando o interesse por produtos e categorias diferentes".

Outro ponto decisivo envolve quebrar a barreira de experimentação de itens de maior valor agregado com ações de degustação. "Quando falamos de produtos que têm o sabor como principal diferencial, permitir que o consumidor experimente pode ser uma ferramenta muito poderosa de conversão", afirma Rosi Barbosa.

Por fim, manter um sortimento equilibrado garante que itens diferenciados ganhem destaque na gôndola, atraindo perfis de clientes que buscam qualidade superior.

"O supermercado precisa deixar de ser apenas um ponto de venda e se tornar também um espaço de descoberta. Quando o varejo aprende a vender experiências e ocasiões de consumo, ele deixa de disputar apenas preço e passa a gerar mais valor", aponta Rosi Barbosa.

Dessa forma, os estabelecimentos que acompanham de perto as dinâmicas de consumo e mantêm o sortimento atualizado constroem uma vantagem competitiva sustentável. "Nosso objetivo é oferecer variedade, praticidade e opções que atendam às diferentes necessidades dos consumidores, acompanhando as mudanças de comportamento e as oportunidades de cada estação", conclui Caroline Barros.