
Ataques a supermercados na Europa acendem alerta global; especialista explica como se prevenir

Ataque hacker a supermercados na Europa causaram prejuízos milionários e desperdício de toneladas de alimentos
Supermercados de ao menos dez países europeus sofreram ataques cibernéticos na última segunda-feira (2), comprometendo a refrigeração de centenas de lojas. A invasão de sistemas acontece cerca de 20 dias após hackers assumirem o controle de sistemas de refrigeração de mais de 500 supermercados na França, causando a perda de alimentos e até incêndios.
Desta vez, os principais países afetados foram Suécia, Irlanda, Holanda, Estônia, Finlândia, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Romênia e Reino Unido. Em alguns supermercados, a temperatura dos freezers chegou a 50º C, deixando centenas de quilos de alimentos impróprios para consumo, ocasionando em perdas, descartes e prejuízos milionários. O ocorrido chamou a atenção do mundo para vulnerabilidades nos sistemas digitais da cadeia de abastecimento europeias.
“O grande desafio do varejo supermercadista global é compreender que a segurança digital deixou de ser exclusivamente uma questão de TI e passou a integrar a gestão de riscos do negócio. O investimento em automação deve ser acompanhado por investimentos em segurança, monitoramento, governança e continuidade operacional”, aponta Luis Jairo, head de TI do Grupo Atlas e membro do Comitê de TI da ASSERJ.
Supermercados e regiões afetadas
Na Bélgica, o incidente atingiu ao menos 15 das 700 lojas do Carrefour, cinco unidades do Grupo Colruyt e outras 15 da rede Intermarché. Dezenas de lojas da Ahold Delhaize, também no país e em Luxemburgo, relataram problemas de TI e informaram que ficariam sem produtos refrigerados e congelados nas gôndolas. A rede de açougues De Laet & Van Haver também foi afetada, com freezers que chegaram a ser configurados para 18 °C durante a madrugada.
Na Suécia, sete lojas da Coop foram impactadas, enquanto uma unidade da ICA registrou temperaturas de até 50 °C nos freezers. Na Irlanda, 13 lojas da SuperValu, administrada pela Musgrave, foram afetadas. Também houve registros de problemas na rede Kesko, na Finlândia, no supermercado Selver, na Estônia, e em estabelecimentos de bairro na Holanda.
Os efeitos de uma invasão desse tipo vão além da interrupção dos sistemas. Equipamentos como câmaras frigoríficas, freezers, sistemas de climatização, controle de energia, iluminação e câmeras de segurança podem estar conectados à mesma infraestrutura digital. Quando um invasor consegue acessar uma plataforma de gerenciamento centralizada, o problema pode atingir várias unidades ao mesmo tempo.
“Imagine uma rede com 30 lojas que utiliza uma plataforma centralizada para monitorar os equipamentos de refrigeração. Se essa plataforma for comprometida e permitir alterações remotas, o incidente pode afetar simultaneamente todas as unidades”, explica Luis Jairo.
Além das perdas de produtos perecíveis, uma ocorrência assim pode gerar despesas com manutenção, interrupção das vendas, descarte de mercadorias e danos à reputação da empresa. Há ainda o risco sanitário: um alimento pode manter a aparência habitual mesmo depois de ser exposto a temperaturas inadequadas, sem que isso signifique que esteja seguro para consumo.
Por que os sistemas ficam vulneráveis?
A conexão de equipamentos físicos à internet facilita o monitoramento e permite que técnicos façam ajustes e diagnósticos à distância. Mas, quando esses acessos não são protegidos adequadamente, também abrem portas para invasões. Na prática, qualquer dispositivo conectado pode se tornar um ponto de entrada para hackers.
Nos sistemas de refrigeração, um dos problemas está no uso de protocolos de comunicação antigos, desenvolvidos com foco no funcionamento dos equipamentos, e não necessariamente na segurança digital. Em alguns casos, eles não contam com criptografia nativa. Com acesso à rede, o invasor pode enviar comandos diretamente aos controladores, alterando temperaturas, ciclos de degelo, acionamento de compressores e configurações de alarmes.
Outro risco aparece quando softwares de gerenciamento ficam expostos à internet pública para facilitar o trabalho de fornecedores e equipes de manutenção. Interfaces de controle acessíveis externamente, especialmente quando apresentam falhas de segurança, podem ser identificadas por invasores e exploradas para obter acesso aos equipamentos.
A falta de separação entre as redes também amplia o alcance de um ataque. Quando sistemas de refrigeração, iluminação e ar-condicionado compartilham a mesma infraestrutura dos caixas, computadores administrativos e Wi-Fi usado pelos clientes, uma invasão iniciada em um desses pontos pode se espalhar para outros dispositivos da loja.
Há ainda o desafio da vida útil dos equipamentos. Enquanto um sistema de refrigeração pode funcionar por cerca de 20 anos, os softwares responsáveis por seu controle ficam obsoletos em menos tempo. Assim, máquinas que continuam operando normalmente podem estar conectadas a sistemas sem suporte ou atualizações de segurança.
Para Luis Jairo, esse cenário exige que os supermercados ampliem o conceito de proteção digital e incluam a tecnologia operacional (responsável pelo funcionamento dos equipamentos físicos) no planejamento de segurança.
“Não basta proteger servidores, estações de trabalho e sistemas de ERP ou PDV. Também é necessário proteger os equipamentos que sustentam a operação física do supermercado, já que, à medida que a tecnologia avança, mais dispositivos são conectados à rede, tornando-a mais vulnerável”, alerta o especialista.
O que dizem as autoridades europeias
Após o ataque sem precedentes na França, a nova onda de invasões foi classificada pela Comissão Europeia como “profundamente preocupante”. O comissário de Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, considerou o episódio uma “tentativa deliberada de perturbar a cadeia de abastecimento alimentar e comprometer a confiança dos consumidores”. Em nota divulgada pela agência portuguesa Lusa, ele também destacou que é um sinal de alerta que deve ser levado a sério, enfatizando que "o desperdício alimentar e o impacto nas empresas são reais". A Comissão informou que continuará acompanhando os acontecimentos e os planos de preparação para responder a esse tipo de incidente.
Na Bélgica, o Centro de Cibersegurança confirmou que a Procuradoria Federal investiga o caso. Na Suécia, o Centro Nacional de Segurança Cibernética monitora os incidentes e mantém contato com as empresas afetadas. Na Itália, a Agência Nacional de Cibersegurança (ACN) foi alertada sobre os ataques e reuniu ministros para discutir seus impactos. Nos Países Baixos, o Centro Nacional de Segurança Cibernética também acompanha as investigações. Até o momento, nenhum grupo assumiu a autoria das invasões.
Como os supermercados podem se proteger
Ao analisar o cenário, Luis Jairo avalia que os supermercados brasileiros estão sujeitos aos mesmos tipos de falhas tecnológicas encontradas em outros países, já que o risco não depende apenas da localização, mas da arquitetura tecnológica, das configurações, conectividade e maturidade do processo de gestão.
"O cenário nacional merece atenção porque supermercados de diferentes portes vêm ampliando a utilização de equipamentos inteligentes, plataformas de monitoramento remoto para melhorar a performance, diminuir o consumo de energia, aumentar a eficiência", enfatiza.
Diante do desafio para os supermercadista, o especialista recomenda medidas para reduzir vulnerabilidades e preparar as equipes para responder a possíveis ataques:
-
Mapeie os equipamentos e segmente as redes: faça um inventário dos dispositivos conectados, incluindo sistemas de refrigeração, controladores de temperatura, PDVs e equipamentos de automação. Identifique quem tem acesso a cada um e mantenha redes separadas para diferentes funções, sempre que possível, para evitar que uma invasão se espalhe pela operação.
-
Reforce o controle dos acessos remotos: identifique os fornecedores e técnicos que acessam os sistemas à distância e restrinja as conexões aos endereços IP e às portas necessários. Exija senhas fortes e exclusivas, atualização periódica das credenciais e autenticação em dois fatores. Também monitore alterações de parâmetros e configurações feitas por terceiros.
-
Monitore os equipamentos: utilize instrumentos independentes para conferir as temperaturas dos sistemas de refrigeração e identificar alterações suspeitas. Sensores que não dependam da rede principal podem ajudar a detectar falhas e acionar a equipe rapidamente. Mantenha os equipamentos atualizados e substitua senhas e credenciais de fábrica.
-
Prepare um plano de resposta a incidentes: estabeleça um protocolo para acionar as equipes de TI, manutenção, operação e segurança alimentar diante de uma suspeita de invasão. Defina como verificar as condições dos equipamentos e preservar registros e evidências que possam contribuir para uma investigação.
Cibersegurança é responsabilidade de todo o negócio
Os recentes ataques reforçam que a segurança digital precisa acompanhar a modernização dos supermercados e fazer parte do planejamento de toda a empresa. Mais do que proteger sistemas de informática, é necessário identificar possíveis vulnerabilidades nos equipamentos conectados e adotar medidas preventivas para evitar que uma invasão comprometa o funcionamento das lojas, a conservação dos alimentos e a segurança dos consumidores. O avanço da inteligência artificial torna esse cuidado ainda mais urgente, ao ampliar as possibilidades de uso da tecnologia por criminosos.
“O supermercado é uma operação cada vez mais conectada, uma operação cada vez mais moderna. Hoje, proteger redes de computadores não é o suficiente. É preciso também proteger os equipamentos que garantem o funcionamento das lojas, a conservação dos alimentos e a segurança dos consumidores. Principalmente com o avanço da inteligência artificial, os ataques se ampliaram drasticamente. Por isso, é preciso listar os pontos vulneráveis e tomar as primeiras ações para mitigar o risco de um eventual ataque às estruturas do supermercado”, alerta Luis Jairo.



