
Como os supermercados podem atrair consumidores que utilizam medicamentos GLP-1

O avanço do uso de medicamentos da classe GLP-1, especialmente associados à perda de peso, deve provocar mudanças relevantes nos hábitos de compra e consumo e já começa a redesenhar oportunidades para o varejo supermercadista. É o que revela uma nova pesquisa da Circana, apresentada recentemente em webinar pela empresa.
De acordo com o estudo, os consumidores que utilizam GLP-1 alteram significativamente seus hábitos alimentares e de compra nos primeiros três meses de uso do medicamento. Esse comportamento inicial difere de forma expressiva do padrão observado nos meses seguintes. Pessoas que utilizam GLP-1 especificamente para emagrecimento gastam menos com alimentos e bebidas do que aquelas que fazem uso da medicação por outros motivos, como o tratamento do diabetes, explica o consultor da Circana, DJ Joyner.
Apesar da redução geral nos gastos com alimentos, o cenário traz sinais positivos para os supermercados. Segundo a pesquisa, durante o primeiro ano de uso do medicamento, os consumidores de GLP-1 aumentaram os gastos com alimentação comprada em supermercados e reduziram o consumo em redes de fast-food e lojas de conveniência.
O crescimento do uso desses medicamentos é expressivo. Uma pesquisa realizada na primavera passada pela KFF — citada pela Circana — mostrou que 12% dos adultos afirmaram já ter utilizado um medicamento GLP-1. Atualmente, esse grupo representa quase 8% das unidades de alimentos e bebidas vendidas, percentual que pode chegar a cerca de 13% até 2034, caso as tendências se mantenham.
“A disponibilidade, a acessibilidade e o preço acessível dos GLP-1 estão aumentando”, afirma Sally Lyons Wyatt, vice-presidente executiva global e principal consultora da Circana.
GLP-1 e a relação entre alimentação e saúde
Segundo a Circana, o crescimento do uso de GLP-1 também reflete um movimento mais amplo dos consumidores em conectar suas escolhas alimentares aos objetivos de saúde. “Os varejistas e as marcas realmente precisam considerar o GLP-1 como um indicador importante desse fenômeno cultural mais amplo e buscar maneiras de inovar e alcançar essa crescente população de consumidores que buscam benefícios para a saúde nos produtos que compram”, diz Joyner.
Perda de peso é fator decisivo
Uma pesquisa da Circana realizada em setembro mostrou que 56% dos usuários de GLP-1 não eram diabéticos, indicando que a perda de peso é um dos principais motivadores do uso desses medicamentos.
Embora os GLP-1 possam ser utilizados para diferentes finalidades — como controle da glicemia, tratamento de doenças cardíacas ou emagrecimento —, os consumidores que fazem uso com foco na perda de peso apresentam comportamento distinto. Segundo a Circana, esse grupo gasta menos em lojas de produtos de consumo do que outros consumidores em dieta. “Os medicamentos para perda de peso serão um dos principais temas de interesse do consumidor que acompanharemos em 2025”, afirma Joyner.
Além disso, usuários de GLP-1 voltados ao emagrecimento tendem a ser millennials, vivem com mais frequência em famílias maiores com filhos, residem em áreas urbanas e se concentram tanto nas faixas de renda mais altas quanto nas mais baixas. Eles também esperam utilizar o medicamento por um período mais curto.
“Qualquer empresa voltada para o consumidor que esteja ajustando suas estratégias de produto e marketing em resposta ao aumento nas taxas de uso que estamos observando para esses medicamentos também deve levar em consideração que uma base de usuários maior significa que veremos um número crescente de consumidores que também estão interrompendo o uso desses medicamentos ao longo do tempo”, diz Joyner.
Impactos diretos nas compras de supermercado
A pesquisa aponta que os consumidores de GLP-1 aumentam os gastos com alimentos recomendados por profissionais de saúde e com produtos que ajudam a aliviar os efeitos colaterais da medicação. Em contrapartida, reduzem o consumo de itens que costumam ser desaconselhados durante o uso do GLP-1, como alimentos muito picantes, proteínas gordurosas, bebidas açucaradas, snacks de carne seca e álcool.
Nos primeiros três meses de uso, os gastos com alimentação — tanto dentro quanto fora de casa — diminuem, mas tendem a retornar aos níveis anteriores após esse período, podendo inclusive crescer nos meses seguintes. Nesse estágio inicial, categorias como congelados e bebidas registram retração, enquanto frios e produtos frescos apresentam aumento nas compras.
“Os benefícios do GLP-1 para frutas, verduras e frios no varejo são significativos”, afirma Lyons Wyatt. “Portanto, esses departamentos apresentam um aumento nas compras — não apenas nos primeiros meses, mas durante todo o primeiro ano.”
Refeições prontas com alto teor de proteína e lanches com porções controladas também aparecem como categorias bem posicionadas para atender às necessidades desse público.
Efeitos colaterais criam novas oportunidades
A maioria dos usuários de GLP-1 relata efeitos colaterais, que podem incluir dores abdominais, constipação, diarreia, náuseas ou pancreatite, dependendo do medicamento.
“Além de pensar em como os medicamentos GLP-1 podem impactar diretamente a demanda a longo prazo por certas categorias de alimentos e bebidas, também existe uma grande oportunidade para os profissionais de marketing inovarem nas mensagens e ofertas de produtos para atingir os consumidores que podem estar sofrendo com alguns desses efeitos colaterais negativos”, ressalta Joyner.
Segundo a Circana, produtos como gomas de mascar para mau hálito e chás voltados ao conforto digestivo já apresentam aumento nos gastos desse público.
Mudança nos canais de compra
O uso de GLP-1 também influencia onde os consumidores fazem suas compras. Um ano após o início do tratamento, há aumento de gastos em atacarejos, supermercados de baixo custo, farmácias e canais exclusivos de e-commerce, enquanto supermercados tradicionais, grandes varejistas generalistas e lojas de conveniência registram retração.
“As famílias que utilizavam GLP-1 tendiam a gastar mais do que a média na maioria dos canais de venda antes de começarem a usar esses medicamentos, e continuam a ter um índice de gastos superior ao dos não usuários nesses canais, considerando cada família individualmente”, destaca Joyner.
Estratégias para atrair esse público
Para a Circana, varejistas e empresas de bens de consumo precisam desenvolver estratégias específicas para atender aos usuários de GLP-1, considerando tanto o tipo de medicamento quanto o motivo do uso.
A empresa recomenda que marcas e supermercados ofereçam produtos alinhados ao controle de peso, com foco em nutrição, porções menores e alívio de efeitos colaterais, criando novas oportunidades de merchandising e receitas publicitárias. Também sugere maior integração entre os setores de alimentos, bebidas, beleza, bem-estar e farmacêutico.
“Mensagens e segmentação personalizadas são cruciais porque cada pessoa é diferente, considerando estilo de vida, trajetória de vida, fase da vida, doença, estado de saúde e objetivos gerais”, frisa Lyons Wyatt.
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