
Chegada de caneta emagrecedora brasileira pode impactar varejo supermercadista

Na última semana, a primeira caneta emagrecedora brasileira chegou às farmácias do país. A Ozivy, desenvolvida pela farmacêutica EMS, é a primeira versão nacional lançada após o fim da patente do Ozempic. Com distribuição iniciada pelas capitais, o medicamento promete alcançar todo o território nacional até julho, trazendo um impacto que vai muito além do setor de saúde: ele deve mexer diretamente no comportamento de compra nos supermercados.
Um dos principais diferenciais do produto nacional é o preço. Cada caneta custa, em média, R$ 452. Porém, a EMS disponibilizou um plano em que o tratamento para 90 dias (três meses) sai por R$ 863,23 - ou seja, reduz o custo médio para cerca de R$ 287 por mês. No quarto mês, o valor da caneta passa para R$ 498.
Essa democratização de preços é reflexo da queda da patente da semaglutida, ocorrida em março de 2026. Desde então, a concorrência acirrou. A Poviztra, por exemplo (produzida pela Novo Nordisk e distribuída pela Eurofarma), teve o custo mensal reduzido para R$ 299,50.
O impacto já é visível nas farmácias. A Drogaria Pague Menos observou um aumento de 100,8% no número de clientes e 178% nas unidades vendidas, sendo que 84% desses novos clientes nunca haviam usado semaglutida ou tirzepatida antes. Os números revelam que cada vez mais pessoas estão aderindo às canetas emagrecedoras e iniciando o tratamento. Com isso, os supermercadistas precisam adaptar o mix de produtos para atender a uma nova rotina alimentar dos brasileiros.
Como as canetas emagrecedoras afetam a fome
A Ozivy é uma caneta emagrecedora brasileira feita à base de semaglutida artificial. A substância imita o hormônio GLP-1, que é produzido naturalmente no intestino depois da ingestão de alimentos. Este hormônio atua no controle glicêmico, estimulando uma maior liberação de insulina e diminuindo a produção de glucagon, o que controla a glicemia do sangue.
Além disso, a semaglutida atua no cérebro para dar maior sensação de saciedade. Para completar, também retarda o esvaziamento do estômago, deixando a digestão mais lenta. Como resultado, a pessoa se sente "cheia" por mais tempo.
Uso de canetas emagrecedoras impacta diretamente no consumo de alimentos
O "Efeito Ozempic" afeta diretamente a cesta do mercado. Como as canetas emagrecedoras reduzem drasticamente o apetite e o desejo por açúcar e gordura, alimentos ricos nesses compostos enfrentam uma retração natural no volume de vendas.
Na prática, categorias tradicionalmente associadas ao impulso tendem a registrar menor número de vendas, como biscoitos recheados, salgadinhos e chocolate. Alimentos congelados e/ou ultraprocessados também acabam perdendo força, não só entre quem usa canetas emagrecedoras como também entre pessoas que buscam maior saudabilidade. O mesmo vale para o setor de bebidas, com menor consumo de refrigerantes e bebidas alcoólicas.
Ricardo Marcolan, diretor do Redeconomia Superpax, destaca alguns dos setores que já começaram a registrar queda nas vendas. "Biscoito recheado e massas são áreas que caem muito porque o consumidor vai deixando de consumir ou consumindo menos, colocando outras opções mais saudáveis dentro da cesta", analisa.
Oportunidade dos produtos de saudabilidade
Apesar da menor procura pelos alimentos citados, outra categoria vem ganhando muita força: os produtos voltados à saudabilidade. O novo consumidor não necessariamente está comendo menos, mas comendo diferente. O uso das canetas emagrecedoras causa uma rápida perda de peso, exigindo maior cuidado com a manutenção da massa magra. Por isso, alimentos com mais proteínas se tornaram uma prioridade.
"Carnes magras, como patinho e filé mignon, são carnes que crescem. Frango e ovo também. Toda essa linha de produtos com um pouco mais de proteína, cresce", pontua Ricardo Marcolan. Iogurtes proteicos, barrinhas de cereais e alimentos com whey também são algumas categorias que o diretor do Redeconomia Superpax aponta que estão com maior procura.
Produtos naturais, com poucos ingredientes e porções menores também ganham destaque, já que se tornam mais práticos e favoráveis à sensação de saciedade prolongada causada pela medicação. Já os refrigerantes e cervejas tradicionais dão espaço para bebidas zero açúcar, zero álcool e zero calorias.
Supermercados se adaptam às mudanças de consumo
Ricardo Marcolan, diretor do Redeconomia Superpax, conta que foi necessário realizar uma adaptação ao novo perfil de consumo. Além do efeito das canetas emagrecedoras, ele destaca que há uma maior busca por saudabilidade no geral, até mesmo entre os consumidores que não usam medicamentos para perder peso.
"Atualmente, nós temos grande influência nem só das canetas emagrecedoras, mas da saudabilidade. Quem não está usando caneta, está pensando em ter um pouco mais de saúde. Então isso influencia muito no comportamento do consumidor", afirma Ricardo.
Até alguns anos atrás, produtos voltados para a linha saudável, com maiores percentuais de proteínas e menos calorias, não eram tão buscados como hoje. Para satisfazer a nova demanda graças ao "boom da saudabilidade", os mercados precisaram começar a reorganizar suas gôndolas para dar espaço a outros estilos de alimentos.
A mudança já se reflete de forma expressiva no faturamento. Segundo Marcolan, as categorias focadas em nutrição funcional conquistaram um espaço relevante nos números da rede. "Hoje, já tem quase 1% do meu negócio pensado em linha proteica. Começamos a trabalhar com produtos como temperos e castanhas, que a gente não trabalhava no passado, e a desenvolver isso melhor para tentar dar um pouco mais de saúde para o consumidor", analisa.
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