geração z supermercado

Busca da Geração Z pela casa própria transforma hábitos de consumo no varejo supermercadista

30/01/2026

Atualidades
geração z supermercado

Apesar da percepção de que a Geração Z estaria se afastando de marcos tradicionais da vida adulta, um novo estudo indica exatamente o oposto. Jovens consumidores estão fazendo concessões financeiras estratégicas em diversas categorias de consumo — inclusive no varejo supermercadista — com um objetivo claro: viabilizar a compra da primeira casa.

De acordo com o relatório “The Kids Are Alright (Right?)”, da Big Chalk, 42% dos inquilinos da Geração Z esperam adquirir um imóvel nos próximos 12 meses, um avanço significativo em relação aos 30% registrados em 2024. Esse movimento tem provocado uma mudança profunda no comportamento de consumo dos jovens de 18 a 29 anos, marcada por maior controle de gastos e decisões mais racionais no ponto de venda.

Mesmo com crescimento salarial acima da média nacional nos últimos dois anos — entre 7% e 8%, contra 4% a 5% da média, a Geração Z vem reduzindo despesas de forma mais intensa do que qualquer outro grupo etário. Em 2025, 37,4% desses consumidores foram classificados como “Consumidores de Equilíbrio”, perfil que adota cortes ativos de gastos, percentual superior aos 34,4% da população total.

Essa postura se reflete em praticamente todas as categorias monitoradas pela Big Chalk, incluindo moradia, automóveis, vestuário, lazer, alimentação fora do lar, supermercado e entretenimento. Apenas viagens e entretenimento se mantêm próximas da média nacional.

A lógica por trás da estratégia de compras

Para Rick Miller, líder da área de marketing da Big Chalk, o comportamento revela um padrão consistente. “Sabemos que a Geração Z quer economizar para grandes eventos de vida, como a compra de um imóvel, mas sem abrir mão das marcas que considera importantes”, explica.

Segundo ele, isso ajuda a entender por que esses consumidores realizam mais idas semanais ao supermercado, combinadas com compras pontuais em clubes de atacado. A estratégia consiste em adquirir produtos não perecíveis em grandes volumes, aproveitando preços unitários mais baixos, enquanto itens perecíveis e marcas preferidas continuam sendo comprados no varejo supermercadista tradicional. “Os clubes de compras nem sempre oferecem todas as marcas desejadas ou as melhores condições em produtos frescos. Por isso, a Geração Z complementa suas compras no supermercado”, afirma Miller.

Além disso, promoções temporárias e reduções de preço no varejo supermercadista muitas vezes se mostram mais vantajosas do que os descontos por volume, o que reforça a lógica de alternar canais conforme a semana e a categoria.

Compras divididas entre diferentes lojas

Os dados mostram que a Geração Z tem 50% mais probabilidade de visitar múltiplas lojas em busca de preços mais equilibrados. Ainda assim, isso não significa uma obsessão maior por promoções em relação a outras faixas etárias. “Eles não buscam ofertas mais do que os outros consumidores. A diferença está em como são impactados pela comunicação”, destaca Miller.

Para ele, o desafio está menos no desenho das ofertas e mais na eficácia dos canais de comunicação utilizados pelos varejistas. “Não é necessário criar promoções exclusivas para a Geração Z, mas garantir que ela saiba que essas ofertas existem e chegue até elas no momento certo.”

Café e refrigerantes: ajustes sem troca de marca

No nível de categoria, o comportamento da Geração Z se mostra ainda mais sofisticado. Mais de 40% dos jovens tentaram reduzir gastos com café e refrigerantes em 2025, mas sem abrir mão de marcas consolidadas.

A principal estratégia de economia não está na troca de marcas, mas na gestão de embalagens. “No café, eles migram para embalagens menores. Já nos refrigerantes, buscam embalagens maiores para aproveitar descontos por volume”, explica Miller.

Cautela no sortimento e visão de longo prazo

Apesar dos insights relevantes, Miller recomenda cautela antes de ajustes estruturais no sortimento com base apenas na Geração Z. “O comportamento muda muito de categoria para categoria. É fundamental avaliar o peso real desse público na base de clientes de cada supermercado.”

Ele também alerta para o risco de superdimensionar a influência dessa geração. “A Geração Z representa o futuro, mas ainda é uma parcela do total. Reorganizar todo o sortimento apenas para atendê-la pode não ser a melhor decisão.”

Lealdade começa cedo e tende a permanecer

Para os varejistas que apostam que esse comportamento mais contido vai desaparecer quando os jovens comprarem suas casas, o recado é claro: não conte com isso. “Os padrões de consumo se formam quando a pessoa passa a fazer suas próprias compras e tendem a permanecer até eventos muito marcantes, como casamento ou filhos”, afirma Miller.

Por isso, conquistar a lealdade da Geração Z exige uma abordagem mais sofisticada do que a simples segmentação por idade. “É preciso combinar dados etários com o entendimento do comportamento de equilíbrio de consumo. Esse grupo já é relevante o suficiente para influenciar estratégias”, conclui.

Para o varejo supermercadista, o recado é direto: entender a Geração Z não é apenas uma questão geracional, mas de leitura fina sobre comportamento, contexto econômico e escolhas conscientes no ponto de venda.