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Mudança no consumo do brasileiro redesenha o varejo e desafia empresas

16/04/2026

Comportamento & tendência
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O comportamento de consumo do brasileiro passa por uma transformação profunda e silenciosa que já impacta diretamente diferentes setores da economia. A avaliação é de Leonardo Leão, CEO da Brave Corporate, consultoria de Gestão Financeira Empresarial, que analisa dados recentes de pesquisas para apontar uma mudança estrutural, e não apenas conjuntural, nos hábitos alimentares da população.

Levantamentos recentes ajudam a ilustrar esse movimento. Dados da Scanntech, divulgados pela Folha de S.Paulo, mostram alterações significativas no carrinho de compras nos últimos anos. Entre 2022 e 2025, produtos como massa instantânea (-16%), açúcar (-14%), hambúrguer (-11%), suco pronto (-11%), margarina (-10%), biscoito (-10%) e cerveja (-6%) perderam espaço. Em contrapartida, itens como água (+60%), frutas in natura (+33%), ovos (+24%), sardinha enlatada (+19%), queijo (+17%) e frango in natura (+15%) avançaram de forma consistente.

“Não é uma retração de consumo, é uma substituição. O brasileiro não deixou de gastar, ele passou a gastar de outra forma, priorizando produtos que considera mais alinhados com saúde e bem-estar”, afirma Leonardo Leão.

Ao mesmo tempo, o cenário econômico pressiona o orçamento das famílias. Segundo o Dieese, a cesta básica subiu em todas as 27 capitais brasileiras em março de 2026. No Rio de Janeiro, por exemplo, a alta foi de 4,96% em relação a fevereiro, com aumento em nove dos 13 itens que compõem a cesta, como tomate (30,59%), batata (17,91%) e feijão preto (4,42%).

Ainda assim, o encarecimento dos alimentos não explica sozinho as mudanças no consumo. Para o especialista, há uma reconfiguração mais ampla em curso. “Mesmo com o orçamento apertado, o consumidor continua fazendo escolhas. Ele pode até reduzir o consumo de determinados itens, mas aumenta o de outros que considera mais importantes para sua saúde. Isso acontece em todas as faixas de renda, ainda que em intensidades diferentes”, explica.

Esse movimento também se reflete fora do varejo supermercadista. “O cliente não necessariamente está consumindo menos. Muitas vezes, ele está redirecionando esse gasto para o consumo dentro de casa ou para hábitos ligados à saúde, como alimentação mais equilibrada e atividades físicas”, diz.

Outro dado que reforça essa tendência é o crescimento da chamada “cesta de saudabilidade”, que inclui suplementos, iogurtes funcionais, bebidas proteicas e snacks saudáveis. A categoria cresceu mais de 17% no início de 2025, com alguns segmentos avançando em ritmo até 110 vezes superior à média do varejo supermercadista. As bebidas proteicas, por exemplo, saltaram de 5% de penetração em 2020 para 13% em 2025.

Além disso, pesquisas indicam que metade dos brasileiros pretende aumentar o consumo de proteínas em 2026. Esse dado ajuda a explicar movimentos aparentemente contraditórios: mesmo com a queda de quase 9% no preço da carne bovina, o consumo recuou cerca de 8% em volume. Já os ovos, mesmo com alta de 11% no preço, tiveram crescimento de 5% na demanda.

“Quando o consumidor paga mais caro por um produto e reduz o consumo de outro que ficou mais barato, isso não é efeito da inflação. É uma escolha consciente. E escolha não se resolve com promoção, mas com adaptação de portfólio”, analisa Leão.

O especialista também chama atenção para um fator emergente que pode acelerar ainda mais essa transformação: o avanço dos medicamentos à base de GLP-1, utilizados para emagrecimento e controle do apetite. “Esses medicamentos têm impacto direto no padrão de consumo. Pessoas que antes consumiam grandes volumes em bares, restaurantes ou até em casa passam a ingerir menos. Isso já começa a afetar o faturamento de diversos segmentos, da alimentação fora do lar à indústria de ultraprocessados”, afirma.

Diante desse cenário, Leão alerta para um erro comum entre empresas: tentar recuperar vendas apenas com redução de preços. “Quem responde à queda de demanda com promoção está olhando para o problema errado. O consumidor não está deixando de comprar porque está caro, ele está comprando outra coisa. As empresas que não entenderem essa mudança de comportamento tendem a perder relevância”, diz.

Para ele, o caminho passa por reposicionamento e adaptação. “Negócios que ajustarem seus produtos e serviços a esse novo perfil de consumo têm mais chances de crescer. O brasileiro não desapareceu, ele evoluiu. A pergunta que as empresas precisam responder agora é: para qual consumidor estão vendendo?”, conclui.