
Cross-selling sem estratégia de shopper funciona ou só polui a gôndola?

A prática de cross-selling é frequentemente apontada como uma alavanca para aumento do ticket médio e estímulo à compra por impulso no varejo supermercadista. No entanto, quando aplicada sem estratégia, sem dados e sem o shopper no centro da decisão, a execução pode gerar mais ruído do que valor.
O alerta é de Fátima Merlin, especialista em varejo supermercadista, shopper insights e gestão por categorias (GC), que analisou uma execução recente compartilhada por colegas do setor. A ação colocava um clip strip vertical de chocolates em meio à gôndola de absorventes íntimos — uma decisão que, à primeira vista, poderia parecer uma tentativa de cross-selling, mas que, na prática, revela falhas conceituais importantes.
“Cross-selling sem insight e sem o shopper no centro não é estratégia. Antes de cruzar categorias, é preciso cruzar dados, missões de compra e estados emocionais”, afirma Fátima.
Missão de compra ignorada
Segundo a especialista, o primeiro erro da execução está na ruptura da lógica da missão de compra. A categoria de absorventes íntimos atende a uma necessidade funcional, racional e objetiva, com baixo espaço mental para decisões indulgentes. “Quem está nessa gôndola está resolvendo um problema funcional. O chocolate entra como um corpo estranho naquele momento da jornada”, explica.
Conflito emocional e simbólico
Outro ponto crítico é o conflito emocional entre as categorias. Enquanto absorventes estão associados a cuidado, higiene e privacidade, o chocolate remete a prazer e indulgência. “Essa associação é forçada e pode gerar desconforto no shopper. Não existe conexão simbólica natural entre essas categorias nesse contexto”, pontua Fátima.
Baixa conversão e ausência de dados
Do ponto de vista de performance, a probabilidade de conversão também é baixa. Não há evidências claras de complementaridade imediata entre os produtos naquele momento da jornada de compra. “Já testamos iniciativas semelhantes, inclusive em ambientes virtuais, e os resultados são desastrosos. O produto está lá, mas não gira. Visualmente, é possível perceber que não há sequer ruptura do item de impulso”, relata.
Quebra de planograma e poluição visual
Além de não gerar venda incremental, a intervenção compromete a leitura da categoria. A inserção vertical de um produto estranho à gôndola quebra o planograma, dificulta a comparação entre marcas, tamanhos e preços — fatores decisivos em uma compra funcional. “Essa poluição visual atrapalha a experiência do shopper e prejudica a eficiência da categoria como um todo”, reforça.
Cross-selling exige estratégia, não apenas fluxo
Para Fátima Merlin, o erro mais comum está em confundir fluxo de pessoas com oportunidade de venda cruzada. “Isso é cross-merchandising sem insight de shopper. A decisão é tomada olhando apenas para o fluxo, e não para a jornada real de compra”, critica.
Ela destaca que esse tipo de ação pode fazer sentido em outros contextos, como checkouts, áreas de conveniência ou missões claramente indulgentes. Mesmo assim, defende que toda iniciativa deve ser sustentada por dados, testes controlados e KPIs bem definidos.
“Cross-selling não é sobre fluxo. É sobre missão de compra. Não basta cruzar categorias — é preciso cruzar missões, estados emocionais e momentos de consumo”, conclui.
No varejo supermercadista, a mensagem é clara: sem shopper no centro, sem dados e sem estratégia, o cross-selling deixa de ser alavanca de rentabilidade e passa a ser apenas mais um ruído na gôndola.
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