
Palestra no Rio Innovation Week provoca reflexão sobre uso de IA sem perder a humanidade

Palestra no palco Conecta Varejo aborda a Humanidade Aumentada em meio ao crescente uso de IA
O palco Conecta Varejo traz os temas mais atuais do momento e o uso de inteligência artificial não ficou de fora. Foi pensando nisso que o Padre Arnaldo da Silva, professor universitário e membro fundador da Academia Nacional de Educação, Ciência e Inovação da PUC-Rio, preparou a palestra: “Humanidade Aumentada: como usar a IA sem perder o que nos torna humanos”.
Ele convidou o público do varejo a refletir que a inovação e a eficiência proporcionadas pela IA não devem substituir a empatia, a escuta e o cuidado que constroem as relações de confiança com os consumidores. A palestra, inspirada na mais recente encíclica do Papa Leão XIV, foi uma verdadeira aula sobre a importância de não esquecer a humanidade como diferencial para criar conexões autênticas.
Um mundo de tecnologia
Padre Arnaldo começou sua palestra explicando que vivemos um momento em que não é possível se desligar 100% do mundo digital: “Não existe mais essa realidade de uma hora estar online e outra offline. Pelo contrário: nós habitamos essa realidade simultaneamente”, disse.
Pensando nisso, ele apontou que o verdadeiro desafio da IA talvez não seja somente tecnológico, mas antropológico. Padre Arnaldo trouxe ao público uma reflexão sobre a encíclica do Papa Leão. “A IA é pano de fundo, porque o Papa está falando sobre dignidade humana. O ser humano”, disse.
Ele relembrou que o mundo já passou por muitas transformações, citando a Revolução Industrial como exemplo. Para ele, existe uma grande diferença entre aquela época e o momento que vivemos atualmente: “A primeira revolução é circunstancial aos hábitos e processos do ser humano. A segunda tem um impacto interno no ser humano”, disse. Ele destacou ainda os algoritmos como pontos que interferem naquilo que é próprio do ser humano, como o modo como decidimos e escolhemos a partir da tecnologia.
A tecnologia vai dominar o ser humano?
Em sua palestra, Padre Arnaldo deixou claro: não devemos ter medo da tecnologia, pois o ser humano continua no centro. O grande desafio está em buscar um equilíbrio.
“Não podemos ter uma visão apocalíptica e nem uma imagem de que a tecnologia vai resolver tudo para a nossa vida. Ela está à serviço da humanidade. A centralidade é o ser humano”, destacou.
Padre Arnaldo apontou que uma grande diferença é que a IA trabalha com dados, enquanto o ser humano trabalha com significados - e é por isso que a tecnologia não pode dominá-lo. “Processar não é o mesmo que pensar. Refletir não é o mesmo que decidir”, refletiu.
Paradoxo do varejo
Em sua palestra, Padre Arnaldo destacou que o varejo é um dos pontos onde o paradoxo da tecnologia é mais perceptível. A IA chegou para trazer praticidade nos negócios, ajudando em pontos como automatizar estoque, prever demandas e automatizar ofertas e pagamentos.
Porém, ela não consegue substituir o acolhimento do atendimento. Ele usou como exemplo o fato de que muitas pessoas decidem voltar a um estabelecimento porque receberam um atendimento empático. Uma simples pergunta de “como está o seu dia?” e a conversa “olho no olho” são coisas que a IA não pode fazer.
“Por mais que ofereça todo tipo de automação e velocidade, ela não pode substituir aquilo que verdadeiramente é o ser humano”, disse. Segundo ele, o grande paradoxo está em equilibrar o que é a tecnologia e o que é essencial para o desenvolvimento de qualquer instituição: o valor humano.
Onde fica o trabalhador?
“Colaboradores cuidados cuidam melhor das pessoas”. É isso que Padre Arnaldo destacou ao falar sobre a atenção que os líderes precisam ter não apenas com seus clientes, mas também com aquelas pessoas que estão no dia a dia do trabalho.
Ele provocou uma reflexão retórica para todos os presentes na palestra: “Por que as pessoas querem ficar conosco? E por que elas querem ir embora?”. Padre Arnaldo comentou que, no mundo atual, é muito fácil cair na tentação de otimizar tempo e acelerar automações, colocando o ser humano dentro da lógica das máquinas.
“A máquina deve servir para ter processos mais rápidos e possibilitar que a pessoa que trabalha com você possa fazer aquilo que é exclusivamente humano: processar, refletir, ter relacionamento com clientes e mostrar empatia”, disse.
Eficiência não é sinônimo de excelência
Apesar de serem dois termos parecidos, Padre Arnaldo explicou qual é a grande diferença entre eles: “Excelência envolve valores, confiança, responsabilidade, criatividade, ética, empatia, capacidade de reconhecer situações e, sobretudo, sabedoria”.
Para ele, a comunicação é relação, algo que só é possível alcançar com empatia. “Papa Francisco dizia que nós não poderíamos sequer chamar ‘inteligência artifical’ de inteligência, porque ela é mimética, uma cópia da inteligência humana. Somente o ser humano é inteligente porque ele tem uma capacidade que nenhuma máquina terá: liberdade, sabedoria e empatia. Pensar é exclusivamente nosso. Por isso, eficiência é bem diferente de excelência”, pontuou Padre Arnaldo.
Nesse cenário, o líder passa a ter um papel ainda mais essencial: entender como usar a tecnologia como extensão da ação humana. “A liderança é aquela que vai decidir até onde vai a tecnologia e onde chega o que é exclusivamente humano. O líder tem o papel de decidir e orientar”, explicou.
Segundo ele, a função da tecnologia para os seres humanos é básica: “Se ela é usada para fazer com que depois as pessoas se reúnam, ela segue seu propósito. [...] Não é a tecnologia que vai fidelizar o seu cliente, é a relação que você tem com ele”, destacou.
Padre Arnaldo reforçou que o grande desafio não é utilizar tecnologia, mas entender como humanizá-la. “Não é um desafio só da religião, mas da universidade, do mundo corporativo, da família... [...] A responsabilidade principal em escolher é da comunidade humana”, afirmou.
Para concluir sua palestra, Padre Arnaldo convidou o público a refletir como anda a sua relação pessoal com a tecnologia. “Vai ser um pouco de reflexo daquilo que você tem buscado”, finalizou.
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