
Guerra no Irã pressiona: tudo que o varejo supermercadista do Rio de Janeiro precisa saber

A escalada da guerra envolvendo o Irã, com impactos sobre o fluxo global de petróleo, já começa a produzir efeitos concretos sobre a economia brasileira e, de forma particularmente sensível, sobre o varejo supermercadista do estado do Rio de Janeiro.
Embora geograficamente distante, o conflito atua como um catalisador de pressões inflacionárias e logísticas que se propagam rapidamente ao longo da cadeia de abastecimento, afetando desde o custo do transporte até o preço final dos produtos nas gôndolas.
Leonardo de Castro Lima, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), gerente da LCA Consultoria Econômica e professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), destaca: "O principal canal de transmissão para a economia brasileira costuma ser energia e frete. O Estreito de Ormuz é um gargalo relevante para a negociação de petróleo. Em 2024, o fluxo médio na região foi de cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo global. Ou seja, mesmo o risco de interrupção já adiciona pressão aos preços".
Diesel mais caro eleva custo do frete e pressiona operação
O principal canal de impacto imediato está no setor de energia e combustíveis. A elevação do preço do petróleo no mercado internacional tende a pressionar o valor do diesel no Brasil insumo que responde por uma parcela significativa dos custos logísticos.
No transporte rodoviário, predominante no abastecimento do estado do Rio de Janeiro, o diesel pode representar até 45% do custo total das operações. Com isso, qualquer reajuste gera efeito direto sobre o frete, encarecendo a reposição de mercadorias e pressionando a operação dos supermercados.
"Energia entra em praticamente tudo. Desde o diesel, que impacta diretamente o transporte rodoviário, até a petroquímica, utilizada em embalagens e insumos industriais, além dos custos de produção agrícola, como mecanização e irrigação", pontua Leonardo de Castro Lima.
Para um estado dependente do frete de outras regiões, como o Rio de Janeiro, esse movimento representa um aumento relevante no custo de abastecimento, com impacto direto sobre a eficiência logística e as margens do setor.
Cadeia de alimentos sente efeito em cascata
O aumento dos custos logísticos rapidamente se espalha pela cadeia produtiva, atingindo especialmente os alimentos.
Proteínas como frango, ovos e suínos tendem a ser diretamente impactadas, já que dependem de ração e de transporte intensivo. Hortifruti e produtos perecíveis, por sua alta frequência de reposição, também sofrem com a elevação do frete.
O gerente da LCA Consultoria Econômica explica: "Para o supermercadista, o impacto costuma aparecer em forma de maior volatilidade de custos e prazos. Em geral, primeiro surgem oscilações em combustíveis e fretes. Na sequência, vêm os repasses em produtos industrializados, por conta de embalagens e ingredientes, e também nos produtos frescos, pressionados pelos insumos e pelo custo de transporte."
Além disso, a indústria de alimentos processados enfrenta um duplo desafio: custos logísticos mais altos e pressão sobre insumos dolarizados.
Dólar elevado encarece insumos e importados
Em cenários de instabilidade geopolítica, é comum a valorização do dólar frente a moedas emergentes, como o real. Esse movimento impacta diretamente o setor supermercadista ao encarecer insumos importados e commodities cotadas em moeda estrangeira.
"O dólar mais alto afeta o supermercado por dois caminhos: direto, nos itens importados, e indireto, nas cadeias produtivas com custos indexados à moeda americana. Mesmo produtos nacionais acabam sendo impactados, já que utilizam insumos como fertilizantes, resinas plásticas, químicos e combustíveis, todos influenciados pelo mercado internacional", analisa Leonardo de Castro Lima.
Itens como trigo, fertilizantes e derivados de petróleo tendem a registrar alta, pressionando ainda mais os custos da indústria e, consequentemente, os preços ao consumidor.
Produtos importados, por sua vez, podem sofrer reajustes imediatos, além de enfrentar possíveis atrasos logísticos.
Logística global e seguros também entram na equação
Além do impacto direto sobre energia e câmbio, o conflito também afeta a logística internacional.
O gerente da LCA Consultoria Econômica expõe: "Quando o risco de guerra aumenta, seguradoras e armadores tendem a elevar os prêmios de risco, redirecionar rotas e reduzir a oferta de navios em regiões críticas. Isso encarece e também pode atrasar cargas, ampliando a pressão sobre custos e prazos".
Esse movimento afeta especialmente produtos importados e categorias mais dependentes de cadeias globais, como azeites, vinhos e itens premium.
No Rio de Janeiro, impacto tende a ser mais rápido
No estado do Rio de Janeiro, os efeitos tendem a aparecer com maior velocidade, devido a forte dependência do transporte rodoviário e à concentração urbana.
"Um bom termômetro é a própria Ceasa/RJ. Em 2024, foram comercializados cerca de 1,6 bilhão de quilos de hortigranjeiros, movimentando aproximadamente R$ 7 bilhões. Qualquer estresse em diesel e frete aparece ali muito rapidamente e se espalha por toda a cadeia", alerta Leonardo de Castro Lima.
O combustível é, em geral, o primeiro choque percebido pelo varejo. Na sequência, surgem os efeitos sobre fertilizantes, insumo do qual o Brasil importa cerca de 85% do consumo, o que tende a pressionar os custos no campo e, posteriormente, os preços no atacado e no varejo.
Consumidor mais sensível e mudanças no consumo
Com a tendência de alta nos preços dos alimentos, o comportamento do consumidor também deve mudar. A expectativa é de maior sensibilidade a preços, com migração para marcas mais acessíveis, redução do ticket médio e priorização de itens essenciais.
Em cenários de câmbio pressionado e custos elevados, o repasse tende a ser mais intenso ao longo da cadeia, impactando diretamente o poder de compra das famílias.
Setor se adapta a um cenário mais desafiador
Diante desse contexto, o varejo supermercadista fluminense deve intensificar estratégias para mitigar impactos e manter a competitividade.
Entre as principais medidas estão:
- mapeamento da exposição cambial por categoria e fornecedor;
- negociação de prazos e condições comerciais com maior previsibilidade;
- diversificação de fornecedores, incluindo regionais;
- fortalecimento de marcas próprias;
- segmentação de repasses de preços, evitando ajustes lineares;
- otimização logística, com revisão de rotas e consolidação de cargas.
Cenário exige atenção e coordenação
A guerra no Irã reforça como eventos internacionais podem impactar diretamente o cotidiano do setor supermercadista. Mais do que um choque pontual, trata-se de um movimento com potencial de gerar efeitos prolongados sobre custos, consumo e operação.
A ideia central, neste cenário, é clara: ganhar eficiência, segmentar decisões de preço e negociar previsibilidade nos itens mais expostos à volatilidade global, garantindo o abastecimento e reduzindo impactos para o consumidor fluminense.

