
Fiscalização sanitária: 6 passos para preparar sua loja para uma inspeção

No varejo supermercadista, a fiscalização da Vigilância Sanitária não deve ser encarada como um evento pontual ou excepcional. Ao contrário: ela é o reflexo direto de uma rotina bem estruturada de segurança sanitária, baseada em automonitoramento, padronização de processos e prevenção contínua de riscos. Em um mercado cada vez mais atento à qualidade, à segurança e à procedência dos alimentos, estar preparado para uma inspeção é também uma estratégia de proteção da marca, do negócio e da confiança do consumidor.
Segundo Flávio Graça, consultor técnico de Segurança Alimentar da ASSERJ, um dos erros mais comuns dos estabelecimentos é adotar uma postura reativa, agindo apenas quando a fiscalização é iminente ou após a identificação de falhas. “O foco deve estar no dia a dia da operação. Não adianta tentar ‘arrumar a casa’ na véspera — ou pior, depois que o problema já causou prejuízos. Os processos precisam funcionar corretamente todos os dias”, destaca.
A seguir, o consultor elenca os principais pontos estratégicos para uma preparação eficaz e sustentável:
1 - Manutenção contínua das instalações
Flávio Graça alerta que as demandas de manutenção precisam ser tratadas de forma contínua e sistemática. Segundo ele, pequenos problemas negligenciados tendem a se acumular e se transformar em intervenções estruturais mais complexas. Pisos danificados, tomadas sem espelho, revestimentos descascados, infiltrações e pinturas comprometidas favorecem o acúmulo de sujidades, dificultam a higienização e ampliam o risco sanitário.
"Esse cenário dialoga com a chamada Teoria das Janelas Quebradas, segundo a qual sinais visíveis de descuido transmitem a percepção de abandono, estimulando a perda de disciplina operacional. A correção imediata de pequenas falhas fortalece a cultura de cuidado, organização e responsabilidade diária — algo que também é observado pelo fiscal no momento da inspeção", explica.
2 - Clareza e padronização dos processos
O especialista lembra ainda que com um turnover que pode variar entre 35% e 45% no setor supermercadista, a formalização dos processos é indispensável. Para ele, Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) devem estar claros, acessíveis e atualizados, contemplando, no mínimo:
⦁ Recebimento e conferência de mercadorias
⦁ Armazenamento e controle de estoque
⦁ Higienização de equipamentos, instalações e utensílios
⦁ Higiene e conduta dos colaboradores
⦁ Controle de temperaturas
"Além disso, ambientes devidamente sinalizados e rotinas de monitoramento diário garantem uniformidade, rastreabilidade e maior segurança operacional", diz Flávio Graça.
3 - Capacitação e treinamento contínuos
Graça destaca ainda que não é razoável exigir conformidade de colaboradores que não foram capacitados. De acordo com ele, embora o afastamento temporário da operação para treinamentos possa parecer uma perda de produtividade, o retorno em eficiência, engajamento e redução de riscos compensa amplamente o investimento. "Funcionários que compreendem o porquê dos procedimentos tendem a agir com mais responsabilidade. O ideal é que a capacitação ocorra já na admissão ou durante o período de experiência, com avaliação formal como critério de permanência na função", acrescenta.
4 - Registro e controle interno das não conformidades
O consultor pondera ainda que o registro sistemático de inadequações é uma ferramenta estratégica de gestão da qualidade. Graça diz que ele permite aprendizado contínuo, feedback estruturado para as equipes e maior transparência no controle sanitário. "Em países com sistemas sanitários mais maduros, esses registros costumam ser o primeiro item analisado durante uma fiscalização. A inspeção aprofundada só ocorre quando há indícios de falhas graves ou reincidentes".
5 - Organização e disponibilidade da documentação obrigatória
Flávio Graça aponta também que manter toda a documentação organizada e facilmente acessível é fundamental. Durante a fiscalização — normalmente sob pressão — a dificuldade em localizar documentos pode resultar em autuações evitáveis, mesmo quando as exigências estão cumpridas.
Entre os documentos essenciais estão:
⦁ Alvará de funcionamento
⦁ Licença sanitária vigente
⦁ Certificado de potabilidade da água
⦁ Certificado de higienização dos reservatórios
⦁ Certificado de controle de pragas e vetores, com ordens de serviço atualizadas
⦁ Certificado de coleta de resíduos por empresa licenciada
⦁ Planilhas de controle de temperatura dos equipamentos
⦁ Manual de Boas Práticas
No município do Rio de Janeiro, destacam-se ainda:
⦁ Certificado de capacitação no Curso Oficial de Higiene na Manipulação de Alimentos (IVISA/ASSERJ) para todos os colaboradores
⦁ Anotação de Responsabilidade Técnica para estabelecimentos enquadrados no REPA (SIM-RIO)
“A ausência de documentos é uma das principais causas de autuação. Não basta executar corretamente, é preciso comprovar”, reforça Graça.
6 - Postura profissional diante da fiscalização
Para Graça, a fiscalização sanitária deve ser entendida como a etapa final de validação das medidas preventivas, funcionando como uma auditoria técnica e, muitas vezes, como uma consultoria externa. De acordo com ele, os colaboradores devem estar orientados a receber os fiscais de forma tranquila, colaborativa e respeitosa. É possível esclarecer dúvidas, solicitar orientações e, quando necessário, requerer prazos para adequações — especialmente em casos que envolvam obras ou aquisição de equipamentos, desde que haja justificativa técnica.
"Demonstrar boa-fé, organização, sinalização adequada e transparência contribui para uma avaliação mais equilibrada. Afinal, o supermercado é um “organismo vivo”, sujeito a variações operacionais. Passar por uma fiscalização sanitária em uma estrutura complexa como a de um supermercado sem nenhuma não conformidade é um grande desafio. Por isso, o esforço precisa ser contínuo, metódico e incorporado à rotina operacional”, aponta o consultor.
Para o varejo supermercadista, estar preparado para a fiscalização vai além do cumprimento legal. Trata-se de garantir continuidade operacional, evitar prejuízos financeiros, reduzir riscos reputacionais e fortalecer a confiança de clientes e parceiros comerciais. “Quem entende a Vigilância Sanitária como aliada da gestão e da qualidade sai na frente — com mais credibilidade, menos riscos e maior sustentabilidade no mercado”, finaliza Graça.
Notícias relacionadas
-
Comportamento & tendência
-
Comportamento & tendência
2º dia de NRF: executar é o novo inovar. Leia a análise de Fábio Queiróz, presidente da ASSERJ e ALAS
-
Comportamento & tendência
Consumo mais cauteloso redefine estratégias do varejo supermercadista para 2026, aponta NIQ
-
Comportamento & tendência
Como os supermercados podem atender às expectativas digitais da Geração Z

