22 out 2019

Entrevista com Fe Cortez: fashionista carioca se tornou uma das ativistas ambientais mais reconhecidas do Brasil

Fe Cortez estudou moda, administração e marketing. Trabalhou no ramo por mais de dez anos e chegou a ter sua própria agência de conteúdo, até um documentário mudar o rumo da sua carreira e todo seu estilo de vida. O longa “Trashed” fala, entre outras questões ambientais, sobre a ilha de lixo flutuante formada no oceano Pacífico.

A partir daí, Fe se perguntou como poderia gerar menos lixo e começou abolindo os copinhos descartáveis da sua rotina. Em um ano utilizando um copo retrátil de metal, ela economizou 1618 copos descartáveis. A experiência foi documentada e divulgada na plataforma de educação ambiental “Menos 1 Lixo”, criada por ela com o objetivo de conscientizar as pessoas de que não existe “jogar fora”. “Vivemos no mesmo planeta e grande parte do lixo que produzimos ao longo das nossas vidas continua por aqui, poluindo mares e rios”, diz Fe Cortez.

Movimento Menos 1 Lixo

O próximo passo era oferecer alternativas para gerar menos lixo. Inspirada na experiência com os copos descartáveis e na repercussão do ato, Fe criou o copo Menos 1 Lixo, em parceria com uma agência de design sustentável. Feito de silicone livre de componentes que prejudicam a saúde, o copo reutilizável se tornou símbolo do movimento e é, principalmente, um agente transformador de comportamento. A partir dele, os usuários começam a se dar conta de todos os pequenos e desnecessários lixos que podem evitar, como sacolinhas plásticas e canudos.

Por falar em canudos, Fe Cortez foi mobilizadora da campanha #PareDeChupar, contra os canudos plásticos. Artistas e influenciadores aderiram à causa, que teve mais de 1500 compartilhamentos nas redes sociais. O resultado? A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira do Brasil a proibir canudos plásticos em estabelecimentos comerciais!

Ativismo internacional

Suas ações e seu poder de engajamento chamaram a atenção de organizações internacionais. Atualmente, Fe Cortez é Defensora da ONU Meio Ambiente pela campanha Mares Limpos e Conselheira do Greenpeace Brasil. Seu diferencial é tornar a sustentabilidade um assunto acessível e interessante. Por meio do seu conteúdo informativo, Fe consegue gerar identificação e engajar o público. O desafio #UmLookPorUmaSemana e a websérie “Armário Cápsula” são outros exemplos de empreitadas bem-sucedidas, em que ela ainda articulou o ativismo ambiental com sua história na indústria da moda.

Além de ativista, influenciadora e produtora de conteúdo, Fe se diferencia como uma mulher de negócios. O Menos 1 Lixo teve um crescimento de 75% nas vendas, no primeiro semestre de 2019. O seu sucesso comercial é uma maneira de provar aos empresários que apostar em sustentabilidade é um investimento não só econômico como também rentável.

Super Negócios: Como é a sua relação com os supermercados na sua cidade?

Fe Cortez: Os supermercados me atendem apenas na compra dos itens que não são vendidos nas feiras ou a granel, como vinagre, azeite, vinho e queijo. Eu costumo ir de bicicleta ao supermercado, então faço pequenas compras e de itens pontuais que preciso ter em casa.

Dou prioridade para alimentos orgânicos e estes eu acho com mais facilidade em feiras especializadas ou no sistema delivery, que recebo sem embalagens de plástico. Também compro muito a granel e é uma opção que os supermercados ainda não oferecem, infelizmente.

Super Negócios: Gostaria de ver iniciativas sustentáveis adotadas por supermercados estrangeiros no Brasil?

Fe Cortez: Adoraria que os supermercados brasileiros fossem como o Rainbow de São Francisco, nos Estados Unidos. Lá é possível encontrar uma variedade de itens a granel e eles vendem potes para isso, mas os clientes também podem ir com seus próprios. Muito interessante! Outra seção que amo é uma só de chás, que se você não tiver o seu próprio saquinho eles oferecem sacos de papel. As sacolas são todas verdadeiramente biodegradáveis, mas eles têm também uma política de menos embalagem.

Além disso, o Rainbow tem uma seleção enorme de alimentos orgânicos que não são embalados em sacos plásticos. Lá a legislação é diferente e acredito que os supermercados têm força para adotar medidas, junto à indústria, para diminuir as embalagens. E isso aconteceu em lugares que já implementaram a tarifa do lixo. Eu acredito que supermercados brasileiros poderiam fazer um projeto a médio prazo. No entanto, a curto prazo, poderiam vender as sacolas por um valor mais alto. E também aconselho ter outras alternativas de ecobags para os clientes comprarem; seria ótimo!

Super Negócios: Quais outras práticas você considera importante para as lojas?

Também sugiro ter um mix maior de alimentos orgânicos em embalagens sustentáveis, como vidro, e, claro, implementar o sistema a granel. Acho que essas atitudes já seriam um passo importante e alerto que já estou vendo alguns mercados oferecendo esse tipo de serviço para os alimentos secos. Outra postura positiva seria começar projetos pilotos (junto com a indústria) para a venda de produtos como leites em vidro retornável. Existem muitas ideias e caminhos para percorrer e os supermercados ainda estão bem longe no quesito sustentabilidade. Também recomendo comprar de produtores locais e o investimento em mix de alimentos mais saudáveis, porque isso tudo tem a ver com sustentabilidade.

Super Negócios: Como foi participar do movimento ‘Desplastifique Já’?

Fe Cortez: O ‘Desplastifique Já’ me entusiasmou bastante porque está muito alinhado com os assuntos que eu acredito e também porque temos alternativas na mudança dos pequenos hábitos do cotidiano para construir uma nova cultura de menos resíduo, consumo consciente e empoderamento dos consumidores e cidadãos. Foi muito bom participar do ‘Desplastifique Já’ porque é como se tivessem pego o mote da minha vida, a do ‘Menos 1 Lixo’ e transformado numa campanha, que é realmente para desplastificar a vida para além das sacolinhas, que já um grande primeiro passo.

Super Negócios: Avaliando a reação do público, engajamento e aceitação ao movimento. Qual dica você daria para as pessoas que ainda não aceitaram a mudança com a Lei 8006/18?

Fe Cortez: A receptividade do público foi muito grande e as pessoas querem abolir as sacolas plásticas. A grande questão delas, hoje, é o resíduo em suas casas. A gente não tem uma campanha de educação ambiental da Comlurb e não tem coleta seletiva em vários lugares.
A população tem pouquíssima orientação vinda das instituições! Por exemplo, incentivar e explicar às pessoas que na coleta seletiva não é necessário botar o lixo dentro de um saquinho plástico. Também não temos orientação sobre os saquinhos de casa que podem ser substituídos por um único saco. E isso faria com que as pessoas vissem essa mudança de mindset para quem ainda é muito apegado à sacola. No Menos 1 Lixo, a gente dá muitas alternativas para abolir a sacolinha de lixo. Existem ótimas opções, como as sacolas compostáveis, jornal velho, composteira etc. Mas preciso ressaltar que a maior resistência, por incrível que pareça, não é em relação a como carregar as compras para casa e sim a como descartar o lixo em casa.

Super Negócios: Já fez, ou tem interesse, em fazer projetos com alguma rede de supermercado?

Fe Cortez: Recentemente, eu participei da campanha da ASSERJ, mas até agora não fizemos um projeto de inovação com uma rede de supermercados. Eu tenho muito interesse nessa parceria porque acredito que os supermercados têm enorme potencial para serem plataformas de educação ambiental. É neste tipo de estabelecimento que as pessoas vão recorrentemente comprar os seus alimentos. E essa força de ter contato com milhões de pessoas é muito importante para transformar uma cultura / comportamento. Existem tantas coisas que poderiam ser feitas!

Para atender demandas de empresas e indústrias que querem iniciar essa transição para práticas mais responsáveis, nós criamos uma área de inovação no Menos 1 Lixo, em parceria com a Iônica, empresa de inovação para sustentabilidade. Nossa metodologia é certificada e tem o objetivo de apoiar as empresas a iniciarem sua transição para práticas mais sustentáveis, em processos, produção, na prestação dos seus serviços e também na relação com seus públicos. Está sendo muito gratificante dar às mãos às indústrias e empresas que querem fazer esta transformação. Ainda é tudo muito novo, mas já temos as ferramentas e bons exemplos, basta irmos juntos e descobrir estes novos caminhos.

DICAS DA FÊ CORTEZ PARA DESPLASTIFICAR O SEU DIA-A-DIA:

  • Recuse todo e qualquer tipo de sacolinhas plásticas.
  • Faça compostagem: processo de decomposição de matéria orgânica (principalmente restos de frutas, verduras e legumes). O resultado desse processo é o adubo, que é usado para a fertilização do solo.
  • Coleta Domiciliar: assinatura de um serviço que recolhe o lixo orgânico diretamente em sua casa para compostagem. cicloorganico.com.br
  • Diga não aos copos descartáveis! Escolha um utensílio que você possa ter SEMPRE com você. No meu caso é o copo retrátil do Menos 1 Lixo, mas pode ser uma caneca, um squeeze, um copo, aquilo que funcionar ou couber no seu orçamento.
  • Reduza o uso do plástico filme usando potes com tampa, pratos no lugar do plástico filme ou os ecológicos de cera de abelha e carnaúba.
  • Utilize jornal como saco de lixo. Aprenda a fazer a dobra em https://bit.ly/2MGjoma

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