15 out 2018

Entrevista com jornalista André Trigueiro

O jornalista André Trigueiro é uma referência quando pensamos em preservação ambiental e práticas sustentáveis. Pós-graduado em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, também é professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-Rio, escritor, palestrante, editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, comentarista do programa “Estúdio i”, ambos exibidos pela Globonews, e articulista da Folha de S. Paulo. Trigueiro conversou exclusivamente com a revista Super Negócios sobre a sustentabilidade nos supermercados, e expôs o seu ponto de vista sobre a lei nº 8006/18, que proíbe a utilização de sacolas plásticas que não possuam em sua composição pelo menos 51% de fontes renováveis no Rio de Janeiro. A ASSERJ participou do processo de elaboração da lei que tem como objetivo diminuir o impacto ambiental causado pelo excesso de uso de plástico no meio ambiente.

Leia a entrevista exclusiva para a revista SUPER NEGÓCIOS. 

SUPER NEGÓCIOS: Para você, o que significa a sanção dessa lei no Rio de Janeiro?

ANDRÉ TRIGUEIRO: É uma medida que chegou tarde. O Rio de Janeiro sempre foi protagonista nessas iniciativas, e dessa vez ficou para trás, pois no meu entender, já tínhamos argumentos e convicções suficientes de que não deveríamos deixar de acompanhar aquilo que já é a manifestação clara de um novo protocolo que rege embalagens no mundo. O Chile acaba de se tornar o primeiro país da América Latina a abolir em todo território nacional o uso de sacolas plásticas descartáveis. Em São Paulo essa medida me parece acontecer de forma correta e estruturada, definindo novos materiais que constituem as sacolas, e sinalizando para o consumidor sobre seus usos. Vivemos em um mundo plastificado, e os plásticos tem tempo indeterminado de degradação. A ONU declarou 2018 um ano importante para o combate ao plástico. Não faz sentido que empresários, que se dizem modernos e inteligentes, antenados com o mundo, repliquem o erro de utilizar esse tipo de sacola da forma como ainda se vê no Brasil.

SUPER NEGÓCIOS: Como os supermercados podem incentivar essa mudança de hábito na população?

ANDRÉ TRIGUEIRO: A campanha da ASSERJ vem para a adequação da lei. É a função social que se pede desse segmento da economia, do varejo, que instrua o consumidor sobre as mazelas das sacolas plásticas descartáveis, e oriente sobre as novidades previstas na lei. Em relação aos consumidores, precisamos fazer da informação uma ferramenta em favor da cidadania, do bom senso, da preservação do meio ambiente e da redução do risco de enchentes. Tudo isso está associado a proibição das sacolas plásticas descartáveis. É uma questão que não atinge só o Rio de Janeiro, e ao Brasil.
O mundo inteiro debate e discute a urgência de não permitir que a gente normatize algo banal. A vilania não é apenas nas sacolas plásticas, estamos falando do isopor, que é da família dos plásticos, e muito utilizado nos supermercados. Embora seja reciclável, a taxa ainda é baixa. O isopor é tão barato que reciclar se desinteressante para a economia. Temos que mirar os copos plásticos descartáveis de água de café, pratinhos e talheres descartáveis para aniversários. Tudo isso pode ser substituído por matérias que parecem plástico, mas não são derivados de petróleo. Não precisamos esperar lei para fazer isso. Empresários éticos e responsáveis se antecipam a lei.

Em janeiro deste ano, a filial da Urca do Supermercados Zona Sul aboliu o uso de sacolas plásticas derivadas de petróleo. Como vê essa iniciativa?

O mundo tem jeito, mas precisamos fazer a nossa parte. Não precisamos esperar uma lei para fazer o que é certo, pois isso tem um custo caro para a sociedade. Sei que os supermercados trabalham com uma linha marginal de lucro muito apertada, mas realmente tenho dificuldade de entender quando a informação chega, sabe-se o que é certo e errado, e ainda assim viralizamos comportamentos que vão gerar impacto negativo. Estamos em um momento que as pessoas precisam sair da zona de conforto e se posicionar com clareza. Pensar fora da caixa é o mantra dos empresários que se reúnem em grandes congressos, mas a pratica de pensar fora da caixa não é a regra. Precisamos promover inovações no setor de embalagens de uma forma geral, e na forma de levar as compras dos supermercados. Não acredito que sejamos reféns de sacolas plásticas descartáveis. Quem diz isso comete a imprudência, por exemplo, de ignorar como era antes, e eu pertenço a essa geração.

Você vê uma possível resistência por parte do consumidor para essa mudança de mentalidade?

Não creio, com base em dados apurados em São Paulo, que o público seja resistente a essa medida. A minha presunção é que vai se repetir no Rio de Janeiro o que houve em São Paulo: uma redução monumental de sacolas plásticas. Você não tem uma demanda por sacolas em um local onde ela é empurrada como vemos hoje. Por “parecer” ser de graça, todo mundo pega mais do que acha que precisa. A sacola não é resistente, então você vai colocando duas, três sacolas, para levar itens mais pesados, isso é completamente irracional. Em uma democracia faz parte as pessoas se queixarem, a vida é assim. Tem pessoas que reclamaram do fim da máquina de escrever, da substituição da máquina de fotografar de película por máquina digital, tem gente que não aceita as mudanças do mundo.

Quais são as iniciativas sustentáveis que você pretende ver nos supermercados?

Copiem o exemplo de algo que, até onde eu sei, não seguiu em frente, que são os supermercados verdes do grupo Pão de Açúcar. Eu vi a inauguração da primeira loja inspirada nesse conceito, em Indaiatuba-SP. O conceito está presente em cada detalhe da loja, que vai desde o uso de máquinas e equipamentos com baixíssimo consumo de energia para refrigeração, em lugar do isopor usam a fécula de mandioca e outros materiais orgânicos, madeira com certificado de origem, a loja aproveita a iluminação e ventilação natural, se faz a segregação dos produtos no check out. A própria funcionária observa o que eventualmente pode ser segregado ali mesmo para fins de reciclagem, por exemplo, caixa de pasta de dente. Todas as lojas verdes do grupo promovem a coleta seletiva no perímetro do supermercado, com contêineres para estimular a população. Eu gostei muito do que vi e não é nada de outro mundo, não é uma revolução conceitual sem precedentes.

Como enxerga o futuro  do setor?

O supermercado do século XXI tem que nascer. Construir supermercados no Brasil como se faz há 50 anos não é ser moderno. Eu gostei de ver o exemplo de Indaiatuba. Acho importante que durante o processo admissional de funcionários nos supermercados, eles sejam instruídos sobre práticas sustentáveis que sejam aplicadas não só no emprego, mas também em casa. Empresário que gera muito emprego deveria acelerar processos na direção de uma nova consciência cidadã, e que isso também alcance a dimensão ambiental. É importante que o discurso ambiental não caia no ecologicamente correto de fachada, a maquiagem verde. Estamos na era das redes sociais e vigilância cidadã, precisamos fazer a nossa parte.

Para você, qual é o gargalo que os supermercados enfrentam nesse sentido?

A gestão de resíduos nos supermercados é caótica, tem lojas que não fazem uma segregação que seja inteligente, que alcance materiais não nobres. O isopor virou uma praga nos supermercados, bandeja com plástico é uma dupla infernal. Eu discrimino lojas que passaram a usar o isopor dessa forma, e falo com os gerentes.

Como é a sua relação com supermercados?

A minha rotina não é regular, é esporádica, então vou em supermercados ou lugares mais próximos que não trabalham com muito estoque. Para certos produtos que nas lojas mais próximas sei que estão mais caros, porque não há capacidade de estoque, já há previamente um planejamento meu de comprar em lojas maiores, onde o pressuposto é de que o estoque garanta um preço melhor. Tenho interesse no consumo de orgânicos. Existe um determinado supermercado que me parece sinalizar com mais segurança, para consumidores exigentes como eu, a procedência dos orgânicos, essa oferta me atrai. Procuro ser seletivo em relação as marcas e aos produtos de supermercado.


O Rio de Janeiro foi a primeira capital do Brasil a banir os canudos plásticos descartáveis. A lei obriga bares e restaurantes a oferecer canudos de papel biodegradável ou reciclável.

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Livro: Cidades e Soluções – Como construir uma sociedade sustentável: 2017, Editora Leya

No ar desde 2007 pelo canal por assinatura GloboNews, o programa de TV que dá nome ao livro, sempre capitaneado por Trigueiro, se especializou em buscar, apresentar e debater experiências transformadoras capazes de impactar positivamente a qualidade de vida dos habitantes das cidades por meio do uso inteligente e sustentável dos recursos naturais. O acervo acumulado nos dez anos da atração inspirou a realização da obra, que expande o conteúdo da TV ao oferecer dados, informações e abordagens inéditos.

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Engajados e tendo como um de seus pilares a sustentabilidade, a rede Zona Sul se destaca por iniciativas em prol da preservação do meio ambiente. Em janeiro deste ano a rede anunciou o término do uso de sacolas plásticas na filial da Urca. “Conversamos com a Associação de Moradores da Urca sobre a iniciativa e eles gostaram muito da ideia, trata-se de uma grande prestação de serviço para a comunidade’, ressalta Pietrangelo Leta, vice-presidente do Zona Sul. Pietrangelo explica que a decisão mexe com o hábito dos clientes, já que muitos ainda não tem o costume de levar ecobags para o supermercado.

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